

Uma sour personalíssima, misturando os sabores e aromas do caju com a cor intensa da pitaya. Esta é a nossa Katharina com K, uma homenagem às refrescantes e brasileiras cervejas ácidas, e também ao nosso grande Lua, o rei do baião.

Ouvindo o som da sanfona
Numa noite enluarada
Só fez atiçar vontade
De prolongar a noitada
Ainda sem seu descanso
Depois de um dia pesado
Queria estar com essa gente
Curtindo tranquilamente
O mestre abençoado
Depois de um dia corrido
No seu posto o capitão
Azedou mosto fervido
No meio da confusão
“Pois não jogue fora não”
Pediu pros cabra guardar
“Quem sabe tem serventia”
E assim falou Maria
“Vou no passadio usar”
Voltando lá pro sertão
Januário é quem tocava
Em forma de gratidão
Como o respeito forjava
Deu ordem: ‘pegue a cerveja!’
Trouxeram o tal barril
Limão perde no azedume
O povo não tem costume
De beber com esse perfil
Bela menina aparece
E pediu para provar
Gostou tanto, ainda deu
Sugestão pra melhorar:
‘Porque não bota umas frutas
Para dar doçura e cor?
Temos bons belos cajus,
frutos dos mandacarus,
Pra suavizar seu ‘licor’
Fizeram sua pedida
Foi um alvoroço só
Virou uma nova bebida
Que fez levantar forró
Lampião já preocupado
Para uma alcunha lhe dar
Perguntou logo pra dama
“Como é que você chama?”
“Sou Katharina, com ‘K’!”
Katharina com K
De longe se ouvia o som da sanfona. Era uma noite iluminada de lua cheia e as veredas no meio da caatinga se acendiam com a sua luz. O bando estava muito cansado, mas Maria insistia em só terminar aquela jornada quando desse de cara com o dono daquela sanfona. Estavam perto do Exu, no estado de Pernambuco, depois de passarem por muitas aventuras lá pelas bandas do Ceará. O que mais queriam naquele momento era descansar os corpos e mentes, e nada melhor do que uma festança, um forrobodó, um fuzuê.
Ainda no Ceará, na cidade de Juazeiro do Norte, começaram a fazer uma cerveja, mas por conta de um descuido do grupo, o mosto azedou. Maria achou aquilo estranho, mas resolveu não descartar o resultado daquele “experimento”, por achar que poderia usar para outro fim, como na culinária, por exemplo. Puseram “ela” num barril e o jogaram em cima da carroça de mantimentos.
Voltando às redondezas do Exu, o bando já via as luzes da fazenda onde ocorria a festa. O Capitão do Exército Patriótico – recém-nomeado lá no Juazeiro por ordem do governo Artur Bernardes com o intuito de combater a Coluna Prestes, mas que só lhe serviu para ganhar armamentos e dinheiro, pois não chegaram a se encontrar – já ordenara Corisco para ir ao local do fuzuê avisar da chegada do bando para a festança. Mas sem causar temor, pois o intuito era festejar e parabenizar o mestre que tocava tão divinamente aquele acordeon.
Maria, como havia prometido, só parou quando estava cara-a-cara com o cabra. “É Seu Januário, é?”, perguntou ela. “Sou sim!”, respondeu ele. “Viiiixeeee! É hoje que só paramos no quebrar da barra”, berrou Maria de Déa. Dona Santana, esposa de Seu Januário, acomodou todos e lhes serviu o seu tradicional baião de dois, além de muitas outras iguarias apreciadas por todo o Exu, deixando-os muito à vontade, satisfeitos e muito felizes com tamanho carinho. Sabino Gomes e Dadá foram lá na carroça pegar uns barris de cerveja para servir ao povo em forma de agradecimento e, por engano, levaram aquela dita com o mosto que havia azedado. Começaram a servi-la. Dadá provou aquilo e fez uma careta das mais horríveis. Espiou ao redor e viu uma “cabrita” que estava ao seu lado, cheirosa que nem flor e com um olhar pidão. Deu a cerveja pra ela provar. Provou, nem fez pantim e achou muito interessante aquela bebida. E ainda soltou uma sugestão: “Nosso quintal tá forrado de doces cajus e muitas frutas do mandacaru. E se misturarmos nessa bebida?” Sem demora pegaram essas frutas, as amassaram e jogaram dentro do barril. O resultado foi que aquela bebida ácida e refrescante alegrou mais ainda o Fuzuê que, agora sim, não tinha mais hora para acabar. Não demorou para o Capitão ficar num aperreio só, por ainda não terem batizado o líquido precioso. “Maria, por favor, chame essa menina que deu rumo pra essa bebida, pois é ela quem vai nos ajudar nessa peleja, e antes do quebrar da barra”. “Pronto, Virgulino. Tá aqui ela”. “Ô menina, qual a sua alcunha”? “Katarina, Capitão! Katharina com K”. “Apôis pronto! Taí o nome”.